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PROGRAMA DE PROMOÇÃO DA SAÚDE ORAL

 

 

 

 

 

 

Programa de Promoção da Saúde Oral

Adesão à Aplicação de Selantes de Fissura e Promoção de Hábitos de Saúde Oral

Cláudia Florença e Isabel Braz

Centro de Saúde da Costa de Caparica

Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa

 

 

 

 

 

Supervisão

Prof.ª Doutora Luísa Barros

Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa

Dra. Margarida Bernardo

Centro de Saúde da Costa de Caparica

 

Apoio no Design Gráfico de Material

Dra. Bárbara Calado

 

 

Resumo

Face à reduzida adesão à aplicação dos selantes de fissura, o programa desenvolvido tinha como objectivos aumentar esta adesão e facilitar a promoção de hábitos de saúde oral, em 25 alunos do 2º ano do 1º ciclo e encarregados de educação – Escola Básica n.º1, Costa de Caparica. Foram realizadas 2 sessões, uma lúdica com alunos e uma informativa com tutores. Os alunos evidenciaram motivação para os comportamentos de saúde promovidos. Não foram quantificadas as aplicações de selantes de fissura, sendo pertinente a reaplicação do programa. O papel do Psicólogo é essencial na promoção de comportamentos de saúde e adesão a procedimentos médicos aversivos, utilizando estratégias adequadas ao nível de desenvolvimento da população, como as actividades lúdicas e a informação escrita.

 

 

 Programa de Promoção da Saúde Oral

Adesão à Aplicação de Selantes de Fissura e Promoção de Hábitos de Saúde Oral

           

Introdução

A crescente preocupação com a saúde oral surge com a também crescente certeza de que ela está intimamente relacionada com o bem-estar de cada um de nós. A cárie dentária é a doença crónica mais frequente nas crianças, podendo acarretar custos para toda a vida. Contudo, e curiosamente, a maioria das doenças orais pode ser prevenida, reduzida ou eliminada com mudanças de comportamentos ao nível do estilo de vida, e modificações de determinados factores ambientais.

O programa de promoção da saúde oral, desenvolvido no âmbito do estágio académico de Psicologia Clínica da Saúde, surge com um pedido de colaboração da Higienista Oral, relacionado com as reduzidas autorizações dos encarregados de educação para a aplicação de selantes de fissura nos molares definitivos dos educandos (sendo este procedimento gratuito e realizado na própria escola). O levantamento de necessidades revelou que as crianças e os tutores estavam pouco informados e envolvidos no processo de aplicação dos selantes de fissura. Além disso, praticamente não eram seguidos (nem conhecidos) os comportamentos de saúde essenciais à manutenção de uma boa higiene oral e prevenção das principais doenças orais. O programa desenvolvido visa proporcionar à população escolarizada abrangida a aquisição de conhecimentos e a adopção de respostas de higiene oral adequadas.

Uma vez que os comportamentos de saúde são mediados por processos cognitivos, o presente programa considera alguns componentes de modelos teóricos relacionados com a tomada de decisão comportamental. Segundo a Teoria Cognitiva Social (Bandura, 1977, 1986, citado in Bennett & Murphy, 1999; Bennett, 2002; Ogden, 2004), muitos dos hábitos (correctos ou incorrectos) das crianças são consequência dos modelos comportamentais a que são expostas diariamente. Se a família não lava os dentes ao deitar, é pouco provável que a criança o faça. Do mesmo modo, se a família fala das experiências desagradáveis aquando a ida ao dentista, a criança pode partilhar, por aprendizagem vicariante, essas crenças e evitar ir ao dentista. Por vezes são os pais que não querem que os filhos passem por experiências que julgam ser dolorosas, por isso é essencial que sejam informados do procedimento da aplicação de selantes de fissura. A modelagem aumenta as expectativas de eficácia, sobretudo se o modelo tem elevado estatuto social para a criança, encorajando-a a copiar o comportamento.

            O Modelo de Crenças de Saúde (Rosenstock et al., 1966, cit. in Ogden, 2004) postula que a susceptibilidade à doença, neste caso a cárie dentária, tem de ser trabalhada com as crianças, considerando o papel dos benefícios envolvidos. As consequências directas devem ser realçadas e as mensagens indutoras de medo evitadas, porque vistas como estando longe de acontecer não motivam a mudança (e.g., má higiene pode provocar cancro da boca).

Os selantes de fissura reforçam o combate à cárie dentária, mas podem dar uma falsa sensação de segurança, sendo imprescindível a responsabilização da criança. Algumas barreiras devem ser reduzidas, por exemplo através da distribuição gratuita de escovas e pastas dentífricas pelas crianças, para permitir o acesso aos cuidados de higiene oral.

            O locus de controlo da saúde (Rotter, 1966, cit. in Bennett & Murphy, 1999; Bennett, 2002) deve ser interno. Os acontecimentos têm de ser entendidos pela criança como consequências das suas acções, estando sob o seu controlo pessoal. As crianças com percepção de controlo interna parecem ser mais passíveis de participar e beneficiar de programas de saúde, do que aquelas que têm uma percepção de controlo externa.

            As orientações teóricas mencionadas influenciam as estratégias de acção utilizadas no presente programa multidisciplinar de promoção da saúde oral, que tem como objectivos aumentar a adesão à aplicação de selantes de fissura e facilitar a promoção da aquisição de hábitos de saúde oral, por parte de crianças e seus encarregados de educação.

 

Método

Participantes

            A população envolvida no programa é constituída por 25 alunos do 2º ano do 1º ciclo do Ensino Básico da Escola Básica n.º 1 da Costa de Caparica, e seus encarregados de educação. A Escola foi o contexto seleccionado para a implementação do programa, por ser o local onde são aplicados os selantes de fissura, privilegiando a educação e promoção para a saúde e pela possibilidade de intervir com a população infantil e seus tutores. Foram escolhidos alunos do 2º ano de 1º ciclo por se encontrarem na faixa etária em que os primeiros molares definitivos nascem, sendo essencial a aplicação de selantes de fissura, a existência de hábitos de saúde oral e a prevenção precoce da cárie dentária. O critério de escolha da turma foi a conciliação de horários da professora responsável e das autoras do projecto.

 

 Material

A partir de um panfleto existente, dirigido aos encarregados de educação, foi criado um outro escrito num tipo e tamanho de letra perceptível, de modo a facilitar a leitura. A parte exterior (figura 1.) inclui uma imagem alusiva ao Higienista Oral e frases que incentivam a leitura do panfleto e reforçam a confiança e utilidade do programa (”Vamos tratar dos dentes do seu filho! Veja como fica a ganhar”). Existe ainda uma referência às autoras, supervisora e técnica envolvidas no projecto. Na parte interior do panfleto (figura 2.), é feita uma descrição do selante de fissura sucinta, clara e adequada ao nível de desenvolvimento psicológico da população-alvo. Esta adequação compreende o uso de uma imagem ilustrativa da aplicação do selante de fissura e de uma metáfora, “«escudo protector» (…) uma espécie de verniz branco”. Para além da associação do selante de fissura com os hábitos de saúde oral, são enumeradas as vantagens da aplicação deste “escudo”, incentivando a sua autorização (através do preenchimento da ficha existente numa das partes laterais do panfleto).

            O material desenvolvido para a sessão lúdica com os alunos inclui posters, cartaz de jogo e convite para a sessão com os tutores. O primeiro poster (figura 3.) contém a imagem da cavidade bucal, constituindo um momento de fornecimento de informações sobre a aplicação do selante de fissura e hábitos de saúde oral. No segundo poster (figura 4.) é usada a imagem do “Homem-Aranha” que atira uma teia branca para cima do dente, como forma de explicar a aplicação do selante. No terceiro poster (figura 5.) o “Homem-Aranha” está sentado em cima do dente, simbolizando a durabilidade e protecção oferecida pelo selante, quando associado a hábitos de saúde oral. No quarto poster (figura 6.), é utilizada a imagem do “Duende Verde”, associando a inexistência do selante e hábitos de saúde oral ao aparecimento da cárie dentária.

            O cartaz de jogo possui oito folhas A3 que, unidas, formam um tabuleiro (figura 7.). À volta da imagem central de um dente, dispõem-se vinte casas de diversas cores. As cinco casas azuis referem-se a questões sobre o selante de fissura, de que é exemplo “Os selantes são: a) escudos que protegem os nossos dentes?; b) inimigos dos nossos dentes?; c) não servem para nada?”. As cinco casas vermelhas relacionam-se com o tema da cárie, por exemplo ”A cárie é: a) um inimigo dos nossos dentes?; b) um amigo dos nossos dentes?; c) não faz bem, nem mal aos nossos dentes?”. As cinco casas verdes reportam-se a questões sobre a limpeza dos dentes, como é exemplo “Devemos lavar os dentes principalmente: a) no duche?; b) antes de deitar?; c) antes de comer?”. Existem três casas cor-de-laranja, casa de chegada e de surpresa (avanço de 2 casas) e duas casas pretas (retrocesso de 2 casas). Os peões de jogo referem-se a conceitos do programa (figura 8.), como o selante de fissura.

            O convite dado aos alunos e dirigido aos tutores cria uma ligação entre a sessão lúdica e a sessão informativa. A parte exterior inclui a imagem de um dente e a afirmação “Convite para a nossa festa do dente”; a parte interior contém os objectivos (“Vamos falar dos nossos dentes, e em como a nossa Escola pode ajudar a protegê-los melhor”), o dia e a hora da sessão e ainda um espaço reservado para um desenho do aluno alusivo à saúde oral.

Procedimento

            Em primeiro lugar foi realizada a sessão lúdica com os alunos. Tendo sido apresentados os técnicos envolvidos no projecto, abordou-se o tema da saúde oral, definindo conceitos-chave como os selantes de fissura, os hábitos de higiene oral e a cárie dentária. Através da apresentação dos posters, foram explicadas as características e funções do selante de fissura, sensibilizou-se os alunos para a prática de hábitos de saúde oral e trabalharam-se crenças e mitos relativos aos dentistas e procedimentos dentários.

            Após a transmissão de conhecimentos, procurou-se avaliá-los com a realização do jogo. Constituíram-se várias equipas, dividindo equitativamente os alunos. Foi-lhes explicado o objectivo do jogo e cada equipa retirou uma bola numerada de um saco, para determinar a ordem de jogada e escolha do peão. O porta-voz de cada equipa foi seleccionado, tendo como função fornecer a resposta final às questões e colocar o peão da sua equipa na casa correcta.

            Com a conclusão do jogo, foram distribuídos diplomas com a classificação conseguida, kits com escova de dentes, pasta de dentes, fio dental, livrinhos educativos e pedagógicos sobre a saúde oral, facultados pela Higienista Oral e pelo Centro de Saúde. No final da sessão lúdica, foi entregue aos alunos o panfleto dirigido aos seus encarregados de educação, assim como o convite personalizado com desenho alusivo à saúde oral.

            A sessão com os tutores não se realizou, onde se previa a transmissão de conhecimentos sobre os selantes de fissura e vantagens de sua aplicação, e ainda a entrega dos panfletos, incentivando a autorização do procedimento da aplicação dos selantes de fissura.

 

Resultados / Discussão

O programa de promoção da saúde oral desenvolvido recorreu à utilização de estratégias de intervenção adequadas ao nível de desenvolvimento cultural e sócio-cognitivo, dos alunos e encarregados de educação abrangidos pelo projecto. De facto, as actividades lúdicas propostas na sessão com a população infantil tiveram um impacto positivo, uma vez que foi evidente o entusiasmo das crianças durante o seu desempenho. Para além deste feedback positivo, a informação relativa aos selantes de fissura e aos comportamentos adequados de saúde oral foi assimilada correctamente, como se pôde verificar no momento de avaliação constituído pela realização do jogo.

            Nesta sessão lúdica transformaram-se conhecimentos complexos em racionais simples, recorrendo a uma linguagem adequada ao nível de desenvolvimento daquela faixa etária. As mensagens foram transmitidas de forma lúdica e atractiva, envolveram custos e compromissos mínimos, foram de simples compreensão, resultaram em benefícios observáveis e foram consistentes com os valores e normas sociais (Rogers, 1983, cit. in Ogden, 2004).

No que diz respeito a resultados mais objectivos, não foi possível quantificar o número de autorizações de aplicação de selantes de fissura conseguido na turma-alvo, nem compará-lo com as restantes turmas não abrangidas pelo programa. Problemas técnicos do equipamento médico indispensável à aplicação dos selantes de fissura, levaram a que ocorresse um desfasamento temporal entre a implementação do programa e a aplicação propriamente dita dos selantes. Deste modo, não é legítimo avaliar a eficácia do presente programa, com base no número de autorizações da aplicação dos selantes de fissura. Por outro lado, a difícil e reduzida articulação e capacidade de comunicação entre as autoras do projecto, a Higienista Oral e a Escola levou à não concretização da sessão com os encarregados de educação. Assim sendo, parece que a reaplicação do programa de promoção da saúde oral é crucial, atendendo a um maior rigor metodológico e procedimental.

            O programa aqui descrito, com os objectivos de aumentar a adesão à aplicação de selantes de fissura e facilitar a promoção dos hábitos de saúde oral, deve ser repetido e integrado no programa geral de promoção da saúde oral, desenvolvido no âmbito da Saúde Escolar e interligado com os Centros de Saúde. Idealmente, a implementação do programa desenvolvido deveria conciliar-se com visitas regulares de dentistas/higienistas orais às escolas, observação sistemática dos grupos de maior risco, fornecimento de escovas, pastas de dentes e suplemento de flúor de acordo com as necessidades e encaminhamento precoce dos alunos para cuidados de especialidade. Para tal, os Centros de Saúde ou grupos de Centros de Saúde teriam de estar dotados com profissionais habilitados, designadamente Estomatologistas ou Médicos Dentistas e Higienistas Orais.

            Em suma, os programas de educação e promoção da saúde oral devem reflectir um trabalho multidisciplinar, em que cada área do saber tem um contributo a oferecer (Trindade & Teixeira, 2000). Um dos contributos da Psicologia consiste na delineação de intervenções adequadas ao desenvolvimento psicológico da população-alvo e ao contexto social, estratégias estas que se acredita serem facilitadoras da passagem de conteúdos informativos e, portanto, da adesão a comportamentos de saúde.

 

 

 

Referências

Bennett, P. (2002). Introdução Clínica à Psicologia da Saúde (1ª edição). Lisboa: Climepsi Editores.

Bennett, P., & Murphy, S. (1999). Psicologia e Promoção da Saúde (1ª edição). Lisboa: Climepsi Editores.

Ogden, J. (2004). Psicologia da Saúde (2ª edição). Lisboa: Climepsi Editores.

Ribeiro, J. (1999). Investigação e Avaliação em Psicologia e Saúde (1ª edição). Lisboa: Climepsi Editores.

Teixeira, J. A., & Trindade, I. (2000). Psicologia nos Cuidados de Saúde Primários (1ª edição). Lisboa: Climepsi Editores.

 

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