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Carta não só minha, também uma potencial suicida”

Ana Garrett [1]

 

 

 

O que falta é a coragem. A vontade instala-se de quando em vez.

 

Esforço-me continuamente para manter as rodas esquerdas em cima dos traços descontínuos alternados pela linha branca que, fixada intensamente, se espalha pela paisagem toda. Fixo os olhos no chão e lembro-me das recomendações adultas quando comecei a aprender a andar de bicicleta: -“Nunca olhes para a roda, olha sempre em frente, senão cais!”. E caía mesmo. Era impossível não fitar a roda, só para ver, orgulhosamente, como ela seguia direitinha.

 

E se agora me espetasse contra qualquer coisa? Esfolaria um joelho e um cotovelo? Subiria as escadas de dois em dois degraus, com as lágrimas à espera da minha mãe para saltarem aflitas e ansiosas pelo mercurocromo e água oxigenada? Sentiria aquele ardor desolador, ao que ela soprava para apagar um fogo frustrante de quem, há já três longas horas, tentava equilibrar-se em cima de duas rodas?

 

Nunca saberei. Falta-me a coragem que guinaria o volante. A vontade, essa, surge.

 

11º andar sobre o Porto. O rio Douro nunca mais foi o mesmo desde o acidente com o autocarro. Quando estou na varanda penso sempre que se olhar muito aguçadamente para lá vou, concerteza, ver um corpo a descer em direcção à Foz. Tolices. Deixei de ter prazer em tomar o pequeno-almoço com as gaivotas e dar-lhes pedacinhos dos meus cereais enquanto olhava aquelas águas camaleónicas. Para mim passou a ser uma cave que encerra prisioneiros que ficaram privados duma vida à tona.

 

E se eu, num rasgo desprendido qualquer, me atirasse daqui? Faria um galo na cabeça como quando caí da roda dos cavalinhos do parque infantil de uma praceta vizinha? Corria para casa e deitava-me no sofá enquanto a minha mãe me punha uma rodela de batata crua na testa para baixar o inchaço?

 

Não o vou saber. Apenas a vontade, que a coragem...dissipa-se.

 

Estou a vê-la daqui. Sossega encostada a um cantinho, entre o roupeiro e a parede, uma Antónnio qualquer-coisa-de-italiano que caçou muitas lebres, perdizes e etecéteras vários. Nunca consegui perceber se, às vezes, era o meu pai que cheirava à espingarda ou se é, ainda hoje, a espingarda que carrega o seu cheiro pelos anos de uso afectivo.

 

E se eu prendesse uma ponta de um fio ao gatilho e a outra ponta a uma maçaneta da porta, metendo a cabeça de permeio? Sentiria uma dor deveras aguda? Seria como, quando já muito segura na bicicleta, me exibia a toda a velocidade em frente ao portão do colégio, perante uma vasta assistência de coleguinhas impressionados e o Menino Jesus me passou uma rasteira fazendo-me dar várias cambalhotas pelo ar? Chegaria a casa com a têmpora e o olho negros, mas contendo na garganta um orgulho ferido pronto a explodir pela força da humilhação? Enfiar-me-ia no quarto horas a fio e deixava que o meu pai, desesperado, batesse vezes sem conta à porta, repetindo insistentemente que não conhecia ninguém que andasse tão bem de bicicleta quanto eu e que pequenos acidentes acontecem?

 

Não. Acho que não. A vontade aumenta pelo reviver das gargalhadinhas de crianças amontoadas no portão. A coragem foge nem sei porquê.

 

E os pulsos? Vi num filme que as vítimas se esvaem em sangue até morrerem numa agonia anémica. Tenho ali uma faca de carne que corta lindamente e já me pregou diversas partidas. Pelo deslize rápido é praticamente indolor.

 

Sentirei a mesma dorzinha lancinante como naquele dia, às sete horas da manhã  na casa de banho, deixei cair propositadamente uma lâmina de barbear do meu pai em cima de um pulso só para a minha mãe me levar com ela ao posto médico onde tinha uma consulta marcada? Aguentaria a culpa de vê-la aflita quando viu tanto sangue e disse: -“Oh, meu Deus!!! Afinal terás que ir comigo!”?

 

Não vale a pena. A minha mãe está longe e hoje não tem nenhuma consulta marcada.

 

O que falta é a coragem. A vontade instala-se de quando em vez.  



[1] Psicóloga do Projecto de Intervenção Comunitária e Coordenadora do C.A.O da Comissão de Apoio Social e Desenvolvimento de Santa Catarina - Vagos

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