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Livro - "Parejas Tormentosas"

 


CIÚME – Da normalidade à patologia e seu enquadramento clínico

Ana Garrett – Psicóloga

 

 

Caso Acompanhado

            A., 30 anos, sexo masculino, raça caucasiana, 10 anos emigrado em França onde passou por um processo de divórcio extremamente complicado, recorrendo por duas vezes à tentativa de suicídio. Regressa a Portugal onde reencontra D., 31 anos, namorada da adolescência.

 

            Nasce uma alma nova a A., que acredita ter, finalmente, encontrado a paz e o amor que tanto procurou.

 

            D. corresponde aos intentos de A. e começam a partilhar uma vida em conjunto. Desta vida faz parte a filha de D., com 9 anos. A. cobre D. de presentes, usa todo o dinheiro que amealhou em França para terminar a casa da sua amada, oferece-lhe um carro e passa a ser a base de sustentação do casal e da criança, pois prefere que D. não trabalhe.

 

            A par deste modus vivendi inicial, A. experimenta um estado que o entristece: dificuldades de erecção. Apesar de não conseguir levar a cabo a relação coital, esforça-se tremendamente para que D. obtenha prazer durante as relações diárias que vão tendo. Estimula-a e só pára quando percebe um orgasmo. Ele não o tem.

 

            Decorrem um ano. A. é acompanhado pelo serviço de psiquiatria do hospital da sua área de residência e começa a obter progressos na sua vida sexual.

 

Iniciam-se aqui os problemas. D. deixa paulatinamente de mostrar desejo por A., o que o consome. Começa a questionar-se porquê e a inquirir persistentemente a companheira. Esta atrapalha-se nas justificações. Primeiro porque tem enxaquecas, depois porque lhe dói a barriga, ainda porque a filha pode ouvir barulhos...

 

A. entra em espiral de desconfiança. Pede baixa médica, que lhe é concedida(?) e inicia uma verdadeira vigia aos movimentos de D., como se da sua sombra se tratasse. Começam as discussões, as acusações e os ciúmes. A. está crente que D. tem alguém. Aliás, que D. tem toda a gente...

 

Deprime. O serviço de psiquiatria remete-o para um psicólogo, mas no hospital é inviável(?). A. procura ajuda junto dos serviços de segurança social e esta entidade notifica uma Técnica, ao abrigo do projecto de Intervenção Comunitária da área afecta a A., para acompanhamento psicoterapêutico.

 

Assim se inicia o processo.

 

Inicialmente A. comparecia sozinho nas consultas, dando constantemente uma imagem vitimizada pelos affairs que, com toda a certeza, a sua companheira mantinha, ora com o ex-marido, ora com outro sujeito da vizinhança, ora, ainda, com uma amiga enfermeira com quem tinha grande afinidade.

 

Nunca fez referência às suas atitudes violentas e às tentativas de obrigar a companheira a manter relações sexuais com ele contra a sua vontade.  Acerca da vigília que exercia sobre D., considerava um facto perfeitamente normal, dado que se era seu “marido” tinha que saber por onde e com quem ela andava.

 

A terapeuta, tentando desmontar os medos de A., medos que se tornavam cada vez mais em convicções inabaláveis, procurou explicações no seu passado. A., de facto, já tinha sido traído uma vez. A sua ex-mulher teria dado início a um relacionamento extra-conjugal pouco tempo depois de estar casada com A. Este começou a aperceber-se que algo estava errado quando, de um momento para o outro, sem explicação aparente, a mulher começou a recusar manter relações sexuais. Num primeiro momento percebeu-se que A. estava preso num trauma anterior, que transportava agora para o seu relacionamento presente.

 

A determinada altura pediu-se a A. que viesse à próxima sessão acompanhado de D. Acedeu pedindo que a terapeuta convencesse D. que deveria ter relações sexuais com A., pois isso era o normal dos casais.

 

D. vem à sessão e desfia um rol de queixas contra A. Fala da sua agressividade verbal, da mudança radical de comportamento para com ela (do dócil e conversador ao intratável e violento), das perseguições, das proibições de relacionamentos sociais e familiares, da forma como a força a manter relações sexuais mesmo à frente da filha...

 

A. perante estas acusações reage impávido, considerando ter um comportamento mais do que adequado como resultado para a situação em que vive. Acusa D. de manter outros relacionamentos, já que “se com ele não quer sexo, é porque tem com outros”.

 

D. perde as forças, deixa cair os braços e afirma que já não aguenta mais. Jura que não tem mais ninguém, que quer salvar esta relação e que só queria que tudo voltasse a ser como antes. Diz, ainda, que acredita piamente que “A. está doente”.

 

No decorrer das sessões, sempre em conjunto a partir desse dia, as acusações de parte a parte eram frequentes, sendo que era muito difícil moderar a situação. Percebia-se a falta de respeito mutuo, a obsessão de A. e o crescente desinteresse de D., como resposta ao comportamento do companheiro que passou, também, a ter um aspecto descuidado e sujo.

 

Numa determinada sessão, a terapeuta decidiu questionar frontalmente D. acerca do seu amor por A. Esta foi implacável. Esperava esta questão. A paixão que um dia sentiu desvaneceu-se. O amor acabou. A. havia destruído o relacionamento com as suas dúvidas, desconfianças. Com os ciúmes doentios. Com a sua obsessão.

 

Dá-se início, a partir deste dia, a um processo moroso e doloroso de separação. A. inflige dor a ele próprio, auto-mutila-se diante de D. e da filha desta, culpabilizando-a por tais atitudes. Continua a persegui-la pela rua, a passar noites inteiras dentro do carro à porta da casa onde já não vive e que tem a fechadura mudada. A filha de D. sente medo, tem terrores nocturnos, inicia processo de enurese, diminui o rendimento escolar, recusa-se a dormir em casa.

 

A. procura a terapeuta fora de horas e confidencia-lhe que a sua vontade é matar D. e suicidar-se de seguida, acaso esta não reate o relacionamento. Por indicação da terapeuta e por conversas mantidas com o psiquiatra, A. é internado e D. responde com uma medida cautelar através do ministério público.

 

Duas semanas depois D. percebe que está grávida. Resultado infeliz duma noite, afirma, em que foi obrigada a fazer amor(?) com A.

 

Comentários:

Este é um caso que descreve uma perfeita obsessão, rasando o pleno desamor até, tanto do próprio como do outro, que, inevitavelmente, e pese embora os esforços da terapeuta envolvida, terminou em ruptura definitiva da relação, não deixando de passar por diversas situações de violência auto e hetero-infligida.

 

Culturalmente o amor e o ciúme estão intimamente relacionados, dado que quem ama permanece em constante estado de alerta. No entanto, os ciúmes, em pequenas doses, podem ser vistos como um sentimento saudável e, inclusivé, classificados como fazendo parte de uma postura romântica. Porém, por outro lado, quando se apresentam excessivos, podem resultar como doentios e causar dores irremediáveis, ao próprio e ao outro. Curiosamente, a própria palavra alemã Eifersucht (ciúme) sugere uma relação com o fogo, como o acto de queimar. Percebemos, pois, a relação.

 

Este ruminar é, então, considerado como sinal de amor. Não padecendo deste sofrimento, não amamos de facto. O Fado do Ciúme. A cultura. A génese de um povo que se não amargurar não vive em plenitude. Mas o ciúme será, pensa o nosso outro, aquele racional e inteligente, o contrário do amor, será o desamor, de nós e do outro, portanto. Na relação amorosa deverá existir identidade una, nós somos distintos do outro para que possamos amá-lo melhor. Na relação ciumenta, por outro lado, na relação objectal, perde-se essa identidade, dependemos do outro para nos sentirmos válidos, insubstituíveis e indispensáveis. Isto prevalece, conferindo maioria. Eis o sangue que nos corre nas veias!

 

A consciência da possibilidade própria, da auto-possibilidade, de sermos infiéis, dá-nos inquietude e insegurança. Por muito que digamos e asseguremos que nunca trairíamos o nosso companheiro, a realidade é bem distinta. Na verdade não o sabemos, dado que raras almas têm a bizarra e curiosa faculdade de prever o futuro. Sabemos que naquele preciso momento em que pensamos nessa hipótese não seremos capazes de o fazer. Ou seremos. Mas no segundo seguinte tudo é dúvida.

 

E assim nascem os ciúmes. E a culpa é nossa. È espelho. Pois.

 

De acordo com Freud, que não podia deixar de ser mencionado nesta reflexão, mais por preferências pessoais do que propriamente pela dimensão contributiva dada a este tema, o ciúme encontra as suas origens na relação primária entre a mãe e o bebé. A dependência que caracteriza este estádio de desenvolvimento e a impossibilidade por parte do bebé para assegurar a presença constante do objecto do amor, origina uma verdadeira ansiedade de abandono. Talvez também aqui resida um dos motivos da criação da Imago Materna...

 

A pessoa ciumenta é, então, incapaz de aceitar a posição de espaço individual  do outro, inventada para a construção de um relacionamento romântico forte, saudável e permanente. Encerra-se na falsa crença que qualquer relacionamento externo ao casal representa uma ameaça. Para além disso, inicia julgamentos erróneos acerca das relações sociais do companheiro, assegurando que tudo representa um affair. Delira, portanto.

 

Eis que chegamos, inevitavelmente, à límpida hipótese de patologia: de acordo com a DSM-IV (1996) os critérios de diagnóstico para Transtorno Delirante, onde se inclui, apesar de ao de leve, o Transtorno Delirante do Ciúme, são:

 

A.       Delírios não-bizarros que envolvem situações da vida real, tais como ser seguido, envenenado, infectado, amado à distância, traído por cônjuge ou parceiro romântico ou ter uma doença com a duração mínima de um mês;

B.        O critério A para Esquizofrenia não é satisfeito;

C.        Excepto pelo impacto do(s) delírio(s) ou das suas ramificações, o funcionamento socio-ocupacional não está acentuadamente prejudicado e o comportamento não é visivelmente esquisito ou bizarro;

D.       Se episódios de humor ocorreram durante os delírios a sua duração total foi breve relativamente à duração dos períodos delirantes;

E.        A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos directos de uma substância, como por exemplo, abuso de uma droga, um medicamento, ou não se deve a uma condição médica geral (onde se exclui o ciúme do alcoólico).

Especificar tipo (os tipos seguintes são atribuídos com base no tema predominante do(s) delírio(s):

Tipo Erotomaníaco: delírios de que outra pessoa, geralmente de situação mais elevada, está apaixonada pelo indivíduo.

Tipo Grandioso: delírios de grande valor, poder, conhecimento, identidade ou de relação especial com uma divindade ou pessoa famosa.

Tipo Ciumento: delírios de que o parceiro sexual do indivíduo é infiel.

Tipo Persecutório: delírios de que o indivíduo ou alguém chegado a ele está a ser, de algum modo, maldosamente tratado (grifo meu).

Tipo Somático: delírios de que a pessoa tem algum defeito físico ou condição médica geral.

Tipo Misto: delírios característicos de mais de um dos tipos acima, sem predomínio de nenhum deles.

Tipo inespecífico.

 

Ainda, na DSM-IV (1996) podemos analisar os critérios de definição para as obsessões:

 

1.       Pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes que, em algum momento durante a perturbação, são experimentados como intrusivos e inadequados e causam acentuada ansiedade ou sofrimento;

2.       Os pensamentos, impulsos ou imagens não são meras preocupações excessivas com problemas da vida real;

3.       A pessoa tenta ignorar ou suprimir tais pensamentos, impulsos ou imagens, ou neutralizá-los com algum outro pensamento ou acção;

4.       A pessoa reconhece que os pensamentos, impulsos ou imagens obsessivas são produto da sua própria mente (não impostos a partir de fora, como na inserção de pensamentos).

 

Infelizmente, nada é muito claro e objectivo em termos de critérios de diagnóstico. O assunto não estará ainda bem sistematizado para que possamos definir e actuar terapeuticamente em conformidade como fazemos para outras patologias. Independentemente do veredicto final, o importante é a tentativa da cura. O objectivo primário centra-se no terminar do sofrimento, tanto da pessoa com ciúme patológico, como do objecto desse ciúme. Mas como?

 

O caso de A. e D. não é único. Sabemos que, por exemplo, em consultas de serviços públicos ou privados de terapia familiar, casos semelhantes repetem-se. Quantos mais existirão que não são conhecidos e muito menos acompanhados? E a serem acompanhados, são-no  como? Qual a psicoterapia? Qual a farmacoterapia? E desta descrição de caso acompanhado o que, clinicamente, se pode retirar?

 

Clara obsessão? Compulsão de verificação constante, vigias. Estamos perante um TOC? Mas e as ideações fantasiadas? O delírio do engano. A convicção absurda de uma traição claramente inexistente. Estes sintomas podem remeter um terapeuta para a possibilidade psicótica....?

 

Para uma cura eficaz urge, primeiro que nada, clarificar onde encaixar a perturbação. Esta meta não foi, ainda, atingida. Insuficientemente discute-se, apontam-se causas, sugerem-se enquadramentos, mas tudo permanece na dúvida. Neurose ou Psicose? Ou nada disto?

 

            Bibliografia

1.           American Psychiatric Association, (1996) DSM-IV, Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais. 4ª ed. Lisboa, Climepsi Editores

 

2.           Freud, S. (1914) Textos Essenciais de Psicanálise, Vol II – A Teoria da Sexualidade. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1989

 

3.           LeDoux, J. (2000) O Cérebro Emocional-As Misteriosas Estruturas da Vida Emocional. Cascais, Editora Pergaminho

 

4.           Nichols, M. (1998) Terapia Familiar : Conceitos e Métodos. Porto Alegre, Artes Médicas

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