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Crónicas de Afectos
Quotidianos




Não se faz

Ana Garrett

  Vieste a casa num fim de tarde. Como se de cá nunca tivesses saído. Quando foste disseste que não era para sempre, que o nosso caso estava mal resolvido e que acreditavas que num certo tempo haveríamos de juntar as nossas vidas maduramente e assim seguir até ao fim. Palavras de um mágico que sempre me embriagou com o céu no olhar.

Esperei-te todos os fins de dia, todas as madrugadas.  Nas tuas vontades chegavas devagarinho e enrolavas-me no amor. Nunca pronunciaste o regresso. Manhã alta abandonavas o calor da cama como se te queimasse a liberdade, perdia-te com a incerteza das horas. Até à próxima.

  A proteger este amor, imaginava uma onda gigante que nunca rebentava em espuma. Suspensa sobre as nossas cabeças, dava-nos todo o tempo do mundo para pensar. Um no outro. E sonhava com um futuro em cinquenta anos, mãos unidas, num caminho em linha recta.

E assim fomos andando. Foste andando. E eu, atrás de ti, seguia. Interrompia o meu tempo ao chegar do teu cheiro. Afundava-me na inconstância e prendi-a pela certeza de ser a única coisa que tinha.

Auguro-te um final feliz. Daqueles finais dos contos de fadas que a minha idade já afundou num baú qualquer, num sótão, também ele qualquer, ao lado do que resta de ti.

 

Copyright © 2004 Psicoforum -  Ana Garrett