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Crónicas de Afectos
Quotidianos

Pensa

 

 Ana Garrett

 

            Sempre preferiste adormecer-me. E eu deixava-me ir, de corpo a pesar, encostada no teu sólido e seguro peito. Esse era o nosso mais inabalável momento. Mesmo quando já nada nos parecia sobrar durante a luz do dia, sobrava o sono tranquilo e solto, à noite.

 

            Às vezes sentia que me olhavas demoradamente, mas nunca o admitias. Gostavas particularmente de uma música que dizia isso mesmo e cantarolavas. Ofereci-te esse CD. Sabia que gostarias de ter sido tu a escrever aquela letra e oferecer-ma, mas sabia-o apenas de interior, não pelas tuas palavras.

 

            Quanto maior a vastidão do fosso que se instalava na nossa vida, mais árduas as palavras serenas. Resolveste nunca dizer que me amavas mais do que à vida e que naquelas noites em que me olhavas durante o sono pedias incessantemente ao teu anjo da guarda para nunca me perderes.

 

Mas perdeste.

 

            Sabes, as palavras são tão dóceis quando agradam…reforçam as cordas, fazem delas correntes. Poupaste-as. Sempre, sempre, sempre.

 

            Era nos teus olhos desesperados pela fraqueza que percebia quando explodias de amor. Era nos sussurros ofegantes incontidos quando entravas em mim que encontrava continuidade para acordar mais uma manhã de vida ao teu lado.

 

            O nosso quotidiano passou em claro. Ao largo do nosso traçado conjunto. Longas horas de presença sem as palavras… Deus! Como eu quis continuar o caminho contigo! Tantas vezes jurei estar cansada e tu prosseguias sem esperar por mim…

 

            No dia em que me sentei numa pedra a meio do percurso e onde continuo até hoje, culpaste-me, como ainda ontem, ao lado do mar, o fizeste. Pensa em nós.

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