Make your own free website on Tripod.com

 

 

Links

sobre 

SEXUALIDADE

Sexualidade Juvenil

APF



 A Sexualidade Nossa de Cada Dia ...e a Importância do Outro para o seu Desenvolvimento

 

( * ) Gletson  Aguiar  Martins 

  uebemeio @bol.com.br

         

  Quem se desafia a conhecer-se sem passar pelo outro ? Mesmo passando pelo outro, ainda os nossos conflitos conscientes e inconscientes reservam uma pequena parcela de resistências na compreensão de determinadas situações que surgem inusitadas no quotidiano de uma sala de aula. E dentro dessa parcela de resistências , destacamos a desinformação a respeito da sexualidade, seus princípios e elemento motor da vida.

 

            Muitas vezes a sexualidade é entendida somente por uma visão mecânica dos órgãos sexuais, funcionamento e prevenção contra DST. A visão abordada neste estudo coloca o conceito de sexualidade sob o ponto de vista da psicanálise , como aponta  LAPLANCHE e PONTALIS (1970 ) :

"...não designa apenas as atividades e o prazer que dependem do funcionamento do aparelho genital, mas toda uma série de excitações e de atividades presentes desde a infância, que proporcionam um prazer irredutível  à  satisfação  de  uma  necessidade  fisiológica  fundamental...”

( p. 619)

 

                  A má compreensão desses aspectos da sexualidade transformam , na maioria das vezes, os educadores em  figuras moralistas e repressoras. Tornar-se-ão incapazes de reconhecer certos comportamentos  de seus alunos, o porquê de uma raiva excessiva quando determinado(a) aluno(a) fugiu à “regra moral e bem aceita pela sociedade”. Não obstante, estamos longe de também aceitar o profissional inconsciente e liberal  , sempre encarando a sexualidade de uma forma distorcida . 

 

                A psicanálise  destaca grande importância à sexualidade  no desenvolvimento psíquico do ser humano. Freud  salientou que  o sexual não é redutível ao genital. É partindo de uma sexualidade infantil que se abrem os horizontes para o sexual.  Quando se fala em sexualidade infantil, estamos encarando-a como portadora de excitações e necessidades genitais precoces, bem próxima das perversões adultas a partir do momento em que entram em cena as zonas corporais.

 

             Certa vez uma colega me disse que não aceitava uma aluna que passava a aula inteira falando sobre sexo. Aquilo a irritava de uma tal forma que a mesma chegou a expulsar a aluna da sala. A educadora replicava sempre : “estudar , ela  não quer, mas falar disso, ela sabe...”

Como desejamos que nossos alunos fiquem  como queremos  !  A colega retornou agressiva : “ sou educadora e não psicóloga e não tenho obrigação de ficar entendendo ninguém...” Essa posição obtusa e incipiente reflete a  incapacidade de reconhecer as relações transferenciais inerentes à prática de qualquer atividade envolvida com pessoas. Pensar dessa maneira é achar que a educação se consubstancia pela mera  passagem de conteúdos, negando todas as possibilidades da relação humana para superar obstáculos.

 

             Trabalhar com  crianças e jovens envolve um conhecimento evolutivo, as características físicas e emocionais resultantes das transformações ocorridas  . Não basta apenas o entendimento de  tais transformações, mas perceber   as resultantes dessa evolução no dia-a-dia.

 

            Devemos minimizar a repressão que entra em cena para estabelecer uma ordem, que é a ordem de um discurso equivocado sobre valores humanos numa sociedade utilizadora do preconceito como forma de excluir aquilo que lhe confere mal estar. Entender o discurso da sexualidade, quando trabalhamos com crianças e jovens, facilita a prática docente porque favorece a descoberta das relações políticas de nosso corpo e suas manifestações com o  decorrer da vida.

 

            Quando falamos em entender, referimo-nos à visão psicanalítica  dos aspectos básicos da sexualidade : o ser humano já nasce exercendo sua sexualidade. O bebê sente prazer  quando explora objetos através da boca. Portanto, mamar e chupar reforçam necessidades momentâneas, por exemplo ,fome, sede. A maneira como ocorreu essa satisfação – a amamentação se realizou no colo, no berço etc - também é de grande valia para termos uma idéia de como o infante reage aos estímulos e a certas situações. Além disso, a pele exerce um papel   muito   importante  na  produção de estímulos quando tocada. Essa  troca  de estímulos

 ( tocar e ser tocado) oferecerá, no futuro, uma forte estrutura para tornar a sexualidade num momento prazeroso. 

 

               Depois dessa fase, uma outra região do corpo se torna reduto do prazer, a região anal.  Para criança , provoca sensação de prazer o controle (reter) ou descontrole(liberar) esfincteriano, sendo tal processo, dependendo das respostas do meio, que irá determinar o destino dessa forma de satisfação. A criança  trocará esse prazer corporal  pela aceitação do mundo no qual vive.

 

               À medida que o círculo de amizades vai aumentando, a criança passa a perceber as “diferenças” e  “igualdades” pertinentes aos coleguinhas, pois o interesse nas amizades superará a atenção dada aos adultos. Quando o menino percebe a ausência do pênis na menina ou a menina  percebe que há uma “falta” desse órgão nela, surge a angústia de  perda (menina) e a angústia de perder (menino).  Castração  é  o  nome  que  a  psicanálise  colocou

para essa experiência  psíquica, como define NASIO ( 1988 ) :

 

“...designa uma experiência psíquica completa, inconscientemente vivida pela criança por volta dos cinco anos de idade, e decisiva para a assunção de sua futura identidade sexual.”  ( p.13 )

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Os órgãos genitais passam a ser um campo de interesse por parte da criança e, consequentemente, diversas  situações como exibicionismo  e masturbação, por exemplo,  fazem  parte da vivência dela e  não podem ser encarados  sob o discurso patológico, pois  “exibir o órgão genital”  consiste numa forma natural de driblar as angústias que nascem do reconhecimento de um  forte concorrente na disputa do amor pela mãe, o pai. A masturbação, para criança, se torna um caminho de autoconhecimento erótico e de afirmação . A sensação de prazer decorrente desse ato  reforça uma defesa necessária quando o mundo externo oferece duríssimas exigências ; traduz-se num poder que recompõe o narcisismo arranhado. Lógico que essas características , dentro dos limites da evolução infantil, não representam  “arrancar os cabelos” dos pais e educadores com preocupações bobas. Essas situações servem de ponte para a sexualidade adulta.

 

                  É muito comum o desenho de um órgão genital na cadeira da sala de aula, nas paredes dos banheiros, no papelzinho que circula pela sala como fato “fenomenal” , inflamando a atenção do próximo. Acontecimentos  tão humanos quanto estes deveriam ser tratados num tom de normalidade com comentários salutares e instrutivos, levando o educando a perceber a sua evolução.  Não basta somente a compreensão do educador, mas compreender extensivamente, ou seja, o fruto de sua compreensão se torna uma atividade que desperta nos educandos algo prazeroso e , ao mesmo tempo, educativo. Trabalhar  essa “descoberta do corpo e do prazer” inserindo-a numa visão humanista, crítica, sem preconceitos de ordem sexual, proporcionará um  “autoconhecer-se” e uma posição mais sólida em relação a si próprio.  Conhecer as diversas maneiras de expressão disso que se chama sexualidade vai muito além da concepção mecanicista dos órgãos . Vê-la naturalmente, sem didatismos, coloca o educador numa posição que lhe permite trabalhá-la sem intraves, promovendo uma educação saudável, menos repressora e mais humana.

 

 

 

·       Gletson Aguiar Martins , Psicanalista em formação pela ANPC. Professor, Licenciado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BRENNER,  Charles.  Noções básicas de psicanálise. Imago Editora. Rio de Janeiro. 1973.

FREUD, S.   Observações sobre o amor transferencial. Edição Standard Brasileira, vol. XII. 

      Trad. José Octávio de Aguiar Abreu.  Imago Editora. Rio de Janeiro . 1972.

________.     Além do princípio do prazer, Edição Standard Brasileira , vol XVIII.

      Trad. Christiano Monteiro Oiticica.  Imago Editora.  Rio de Janeiro  .1972.

________.     Una teoria sexual y otros ensayos, Obras Completas, vol. II. Trad. Del alemán

       por Luis López – Ballesteros y de Torres.  Santiago Rueda Editores. Buenos Aires . 1952.

LAPLANCHE e PONTALIS, Vocabulário da psicanálise. Livraria Martins Fontes. Rio de

       Janeiro. 1970.

NASIO, J. D. Os 7 conceitos cruciais da psicanálise. Jorge Zahar Editor.Rio de Janeiro . 1988.  

 

  PÁGINA PRINCIPAL

  Copyright © 2004 Psicoforum -  Gletson Martins

 

 


Fish