Make your own free website on Tripod.com

O OUTRO E O SINTOMA NA PSICOTERAPIA ON-LINE

 

Por Gletson Aguiar Martins

uebemeio @bol.com.br

 

 

 

Com o advento das novas tecnologias no campo da informática, o homem moderno se vê muitas vezes reduzido a esse universo virtual. Ficar de fora é sinônimo de atraso e falta de ética com os princípios globalizantes que consomem as relações em nossa sociedade.

  Os "ismos cibernéticos"  criam  seus modelos de consumo e os indivíduos , sob completa compulsão, correm ansiosos  para aliviar o sintoma  quando percebem a cobrança desse mundo proposto como forma de sobrevivência. É possível estar mais próximo do gozo  numa sociedade em que as situações mais elementares passam pelo crivo da competição injusta e desenfreada ?  A tecnologia, necessária, também monopoliza as formas de prazer do homem a serviço dos interesses momentâneos das civilizações.

  Seria absurdo reduzir todo o conhecimento psicanalítico  a uma sessão virtual, à distância, entregue à falta de metodologia. Que metodologia sustenta essa prática clínica ? Quem explica ? Essa mesma sociedade arranjou "os Freuds explicam da vida" ! A prática psicanalítica é que não será jamais. Psicanálise é psicoterapia , por outro lado, nem toda psicoterapia se chama psicanálise.

  Apesar de o inconsciente  se  expressar numa linguagem que o paciente nem supõe  saber compreendê-la, seus significantes  corroboram o mecanismo de repetição dessa "linguagem  imperceptível". A repetição vai em direção ao Outro. O significante encontra mais do que  uma expressão de seu exercício, encontra a organização estruturante do discurso, de uma linguagem que lhe é peculiar, como disse Lacan. Esse meio ,- a internet - , não assumiria a linguagem  de um inconsciente  (des)estruturante a partir do momento em que a prática  ficaria resumida  a um exercício de um significante sem repetição ? O que se repete pode se confundir com a possibilidade da "suposição virtual" ?

  Nasio ( 1992 : 19 ) mostra que o aspecto significante do sintoma gira em torno de um fato involuntário que se propõe repetir-se. Sendo desprovido de sentido, o sintoma  será um acontecimento sem controle da causa e da repetição.Como a virtualidade mostrará fielmente as inúmeras possibilidades de repetição do sintoma ?

  "...curei-me num centro de umbanda !" , "alcancei a graça na igreja X" . Todos esses discursos trazem consigo uma marca : o que os lacanianos chamam de alcançar o gozo do Outro. Que interessa que seja um pajé, um padre, um pastor, um umbandista. As práticas , por mais simplórias que sejam para nossa visão científica, têm seus  significantes postulando reforçar o que se repete na cadeia do sintoma. Tais "terapeutas populares" , com exceção do on-line, prestam contas de si mesmos a partir do momento que assumem uma postura moral digna de reputação. Jung (1971:16 ) salienta essa qualidade da pessoa do terapeuta como condição sine qua non  para o trabalho dialético da terapia. Como o terapeuta on-line sairá do seu "anonimato" para enfrentar as necessidades daqueles que o procuram ?

  A  tecnologia  é um sintoma de nossa  sede de felicidade. A repetição , com todas as suas incessantes dores e alívios, permite que pensemos ser essa "neurose cibernética"  uma doença necessária para  uma boa parte do homem moderno. Infeliz ficaria esse homo sapiens  se suas diversas potencialidades  não correspondessem ao eterno paradoxo do princípio do prazer.

  Que "os terapeutas on-lines" vençam seus medos inconscientes e venham para esse cenário que é a prática clínica real . Estudem  as premissas da psicanálise e o novo poderá brotar sem ser corruptível...

BIBLIOGRAFIA

(1)   FREUD, S . Inhibición , Síntoma y Angustia. Traducción del alemán por  Luis Lópes-Bellesteros y de     Torres . Obras Completas. Santiago Rueda Editor. Vol. XI.  Argentina .1955.

(2)   JUNG, C.G . A Prática da Psicoterapia. Tradução de Maria Luia Appy. Obras Completas. Editora Vozes. Vol . XVI/I . Rio de Janeiro . 1971.

(3)   NASIO, J.-D. Cinco Lições sobre A Teoria de Jacques Lacan. Tradução de Vera Ribeiro. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro. 1992.

(4) LAPLANCHE, Jean & PONTALIS , Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise .Santos, Martins Fontes,3.ed.,1977.

 

Copyright © 2001/2003 Psicoforum -  Gletson Martins