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Psicanálise e ortodoxia : independência ou morte ?


por Gletson Aguiar Martins

uebemeio @bol.com.br


Pode a psicanálise comungar com a rigidez que alguns permitiram para mantê-la tão fiel ao pai ? Evoluir de acordo com as necessidades do homem moderno significa romper com aquilo considerado mais obsessivo e simbólico ? Será que a morte do pai cerrou todas as possibilidades em nome de uma “perfeita conformidade” ? Indagações dessa natureza fazem com que tenhamos uma reflexão acerca do papel dessa ciência, bem como do cabedal teórico e clínico que ao longo dos anos postulou uma prática voltada à compreensão do homem diante da existência.
Segundo o dicionário Aurélio, a palavra ortodoxia significa “ absoluta conformidade com um princípio ou doutrina”. Ser “absoluto” , conservando as premissas básicas de Freud , não representa nem um pouco restringir a extensão profunda dos fatos psíquicos , muito menos fazer da psicanálise um jogo preconceituoso e um campo de batalha onde um determinado saber reflete apenas uma visão mutilada do homem. Se durante décadas houve uma luta para se conquistar maior compreensão dos aspectos inerentes à existência humana , por que a psicanálise iria na contramão ? Que diria Sigmund Freud aos ortodoxos de hoje ? Nada é absoluto enquanto o homem pensa e existe em função desse cogito. Ir mais adiante se constitui uma necessidade pautada pelo desenvolvimento de qualquer ciência.
As inúmeras dissidências no movimento psicanalítico conferem a mecânica de um corpo que reage às forças de outro corpo. Isso é ortodoxia ! O “absoluto” não é o perfeito, não é o tal qual. É o rompimento com aquilo que não transcende, com aquilo que se indispõe a continuar no simbólico a dinâmica da natureza.
Se a partir de Freud surgiram inúmeras dissidências,isso faz parte de uma ortodoxia que se chama psicanálise. A ciência gera seus filhos, eles partem em direções diferentes e constroem o mundo .
Lacan fez um retorno a Freud . Rompeu com uma ortodoxia e deu um colorido todo pessoal à ciência psicanalítica. Instituições, como a IPA, receberam um impacto quando acordaram e viram o novo invadir o cronômetro , o padrão , a forma de “defesa” incapaz de sair da inércia do “ser ou não ser”...Não era o novo inconsequente , e sim, uma proposta muito além do princípio de um prazer que se estabelecera em torno de interesses grupais.
Os diversos ataques feitos à psicanálise durante décadas expõem-na a um denominador comum em que prevalecem as contradições imanentes à visão do homem diante de um mundo que a cada segundo navega em um barco cheio de antíteses e épocas : amor e ódio, pecado e salvação, certo e errado, guerra e paz...
Ser ortodoxo ou não, pouco importa.
Deixemos Freud livre para pensar e prosseguir com a ciência que é mais do que uma “convenção”, mais do que um monopólio do simbólico. Assim o mestre repetiu a secular trajetória da ciência:
“...Todos sabemos cuán frecuentemente, en la historia de la investigación científica, las innovaciones fueron recibidas com intensa y pertinaz resistencia, revelando la evolución ulterior que ésta era injusta, y aquéllas, valiosas e importantes...” ( 1 )
A psicanálise é ortodoxa e independente com todas as suas cores e dissensões para o bem da humanidade !


Bibliografia:

1 - FREUD, S. El malestar en la cultura. Traducción del alemán Ludovico Rosenthal ,Obras Completas , Santiago Rueda Editor ,p. 101-102 ,vol XIX , Argentina,1955.
2 - LAPLANCHE, Jean & PONTALIS , Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise .Santos, Martins Fontes,3.ed.,1977.

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